terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pessoa genial!




O guardador de rebanhos - VIII
Fernando Pessoa(Alberto Caeiro)


Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

15 comentários:

  1. Lindíssima!Adorei tua escolha!Não a conhecia! abração,chica e tudo de bom!

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  2. lindo demais amigo. Que coisa mais maravilhosa. Bjos achocolatados

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  3. Fernando Pessoa, sempre maravilhoso oque não me conformo é que enquanto ele foi vivo era um ilustre desconhecido, qdo morreu que tronou-se famoso.
    Beijosss

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  4. Eu não conhecia (sou uma leiga admiradora de poesia)... Fiquei inebriada. Que lindo! Genial Pessoa, mil vezes genial.

    Beijos, querido.

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  5. Fernando Pessoa é sempre muito bom de se ler meu amigo..abraços de bom dia.

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  6. Olá,Carlos!

    Não conhecia esta forma de olhar Jesus, e tudo o que em volta dele gira. E é muito pouco convencional, eu acho; muito longe daquilo que estamos habituados a ler - e também refrescante e corajosa ...
    Boa escolha de tema.

    Um abraço amigo.
    Vitor

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  7. Ao longo deste tempo
    Fico grata pela amizade e carinho

    Um Feliz Natal
    e
    Ano Novo cheio de esperança

    2012

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  8. É demais. Falta até fôlego, ler Pessoa.

    abraço

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  9. Fernando Pessoa é sempre genial!! rs
    Amo demais!!!!!

    Grande beijo...

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  10. Bastante oportuna a escolha deste poema para essa época do ano. Fiquei cá imaginando o cotidiano no céu. Fascina-me em Fernando Pessoa!! A beleza dos seus poemas e o fato dele ter consciência de tudo que o rodeia. Mais que um poeta, um pensador, um homem à frente do seu tempo.
    Bom restinho de semana!! Beijus,

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  11. Cau, que presente, amigo... Que presente... Li-o do primeiro ao último verso.

    Beijocas!

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  12. MARAVILHADA fiquei!!
    Que escolha ímpar essa sua meu amigo.
    É de arrepiar, de invadir e de deixar a emoção vir á flor da pele.
    AMEI, AMEI, AMEI!

    Abraços e desde já um Natal de muita paz pra você e sua família.

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  13. Mestre Carlos!
    Sabia das coisas o Pessoa...
    Grande abraço, Boas Festas e um Feliz 2012 a você, familiares e amigos.
    Saúde e a Paz do Senhor.
    Adh

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  14. Caro amigo Carlos

    Hoje minha visita é para agradecer
    o presente que é para mim
    a sua amizade,
    e também desejar
    um maravilhoso Natal,
    onde possas encontrar nestes dias
    ainda mais inspiração
    para a alegria de ser feliz,
    e para o milagre de fazer
    quem passa por tua vida feliz.

    Que o teu olhar seja a mais perfeita
    luz do Natal a enfeitar o mundo.

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  15. Neste Natal vamos...

    Multiplicar Amor

    Que nossas mãos possam ser portadoras de paz..
    De afagos...
    De carinho...
    Que escorra delas os mais límpidos sentimentos..
    de bálsamos..
    de alívio..
    de força..
    de luz...
    Que possam ser espraiados na terra árida..
    fazendo germinar o amor entre as pessoas..
    Multiplicando cada melhor essência de nós..
    Fazendo-nos fortes ao meio à tempestade..
    Deixando-nos ver o sol que nasce..
    Que rompe a noite..
    Que se faz dia..
    Que se faz belo..
    Que se faz vida!
    Que se chama amor...

    Boas Festas!

    Bjs

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Meus amigos e amigas sejam sempre bem vindos, eu agradeço aos gentis e inteligentes comentários no meu humilde espaço de reflexão, expressão e comunicação. Espero o seu retorno. Um forte abraço.

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