segunda-feira, 26 de março de 2012



Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

9 comentários:

  1. Carlos, noto q o texto é de 72, então percebo q acostumamos mesmo a tudo, pois ele é atualíssimo. Abçs.

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  2. Hoje é aniversário de uma amiga
    muito especial para mim.
    E para todos nos blogueiros caso não a
    conhecer o endereço dela esta na postagem do blog.
    Que tal deixar seu carinho a essa pessoa
    tão especial?
    Uma linda tarde beijos no coração.
    Evanir.
    A aniversariante é a Marcia Luconi.

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  3. Um belo dia pra ti meu amigo...abraços.

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  4. Nos adaptamos a vida...
    Abraço Lisette.

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  5. Belíssimo texto de Marina! Graças a Deus não moro num lugar assim e não me tranco no apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar como diz a letra da música de Raul Seixas.
    Fico em casa o menos possível, vou trabalhar de bicicleta, caminho para me divertir até encher a cara no sábado, academia jamais! Domingo vou á praia mesmo sem o sol. Sou feliz por morar num lugar tranquilo. Até quando eu não sei, mas vida de preguiçoso só se estiver doente ou quase morto. Abraço

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  6. Meu amigo

    Um belo e verdadeiro texto...realmente o tempo nos ajuda a aceitar o que vier.

    Um beijinho
    Sonhadora

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  7. OLÁ, Caurosa
    Estive ausente pela Quaresma...

    "Renovar
    Perdoar
    Esquecer
    Corações aquecer!!!"
    (Orvalho do Céu)

    Páscoa é:


    "Coragem é a resistência ao medo,
    domínio do medo,
    e não a ausência do medo."
    (Mark Twain )

    SAIR DO PRÓPRIO TÚMULO

    Jesus libertou-me... enviou-me anjos para me soltar das amarras que me prendiam...

    Apóstolo Pedro: “precisamos dar razões que justifiquem a nossa Esperança” (1Ps 3,15).

    FELIZ PÁSCOA PARA TODOS NÓS!!!
    Abraços fraternos de paz

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  8. Boa tarde mestre Carlos!
    Que atual esse texto de 40 anos! Ótima lembrança e reflexão!
    Grande abraço, Feliz Páscoa.
    Adh

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  9. Estava com saudade de ti e de vir aqui, então resolvi dar uma passadinha e que bela surpresa quando encontrei em tuas palavras a expressão do que estou a sentir e pensar hoje... e lendo-te me senti desabafando... obrigada por me proporcionar isso meu amigo Cau... saudades!

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Meus amigos e amigas sejam sempre bem vindos, eu agradeço aos gentis e inteligentes comentários no meu humilde espaço de reflexão, expressão e comunicação. Espero o seu retorno. Um forte abraço.

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